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Um espaço para a publicação de artigos variados sobre a língua portuguesa

Índice

 

Síndrome do excesso de Informação
Por Cristina Baptista

O eterno sentimento humano de ansiedade diante do desconhecido começa a tomar uma forma óbvia nestes tempos em que a informação vale mais que qualquer outra coisa. As pessoas hoje parecem estar sofrendo porque não conseguem assimilar tudo que é produzido para aplacar a sede da humanidade por mais conhecimento.

Como toda ansiedade, a angústia típica de nosso tempo machuca. Seu componente de irracionalidade é irrelevante para quem se sente mal. O escritório de estatísticas da Inglaterra divulgou recentemente uma pesquisa que é ao mesmo tempo um diagnóstico. Cerca de um sexto dos ingleses entre 16 e 74 anos se sente incapaz de absorver todo o conhecimento com que esbarra no cotidiano. Isso provoca tal desconforto que muitos apresentam desordens neurológicas. O problema é mais sério entre os jovens e as mulheres. Quem foi diagnosticado com a síndrome do excesso de informação tem dificuldade até para adormecer. O sono não vem, espantado por uma atitude de alerta anormal da pessoa que sofre. Ela simplesmente não quer dormir para não perder tempo e continuar consumindo informações. Os médicos ingleses descobriram que as pessoas com quadro agudo dessa síndrome são assoladas por um sentimento constante de obsolescência, a sensação de que estão se tornando inúteis, imprestáveis, ultrapassadas. A maioria não expressa sintomas tão sérios. O que as persegue é uma sensação de desconforto – o que já é bastante ruim.

O ambulatório de Ansiedade da USP ainda não pesquisa a ansiedade de informação especificamente. Mas tem atendido um número crescente de ansiosos que mencionam como causa de suas apreensões a incapacidade de absorver informações ao ritmo que consideram ideal. “Ler e aprender sempre foi tido como algo bom, algo que devíamos fazer cada vez mais. Não sabíamos que haveria um limite para isso. Está acontecendo com a informação o mesmo que já acontece com o hábito alimentar. Em vez de ficarmos bem nutridos, estamos ficando obesos de informação”, diz Anna Verônica

O Vendedor de Palavras 
Por Fábio Reynol
Ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, “indigência lexical”. Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma ideia fantástica. Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre os camelôs.
Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: uma mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia: “Histriônico — apenas R$ 0,50!”.
Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinquenta curiosos parasse e perguntasse.
— O que o senhor está vendendo?
— Palavras, meu senhor. A promoção do dia é histriônico a cinquenta centavos como diz a placa.
— O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos.
— O senhor sabe o significado de histriônico?
— Não.
— Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já têm ou coisas de que elas não precisem.
— Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário.
— O senhor tem dicionário em casa?
— Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.
— O senhor estava indo à biblioteca?
— Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.
— Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar para casa uma palavra por apenas cinquenta centavos de real!
— Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la?
— Se o senhor não comer a alface ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha.
— O que pretende com isso? Vai ficar rico vendendo palavras?
— O senhor conhece Nélida Piñon?
— Não.
— É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o País sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui.
— E por que o senhor não vende livros?
— Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo.
— E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem barriga.
— A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento. Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega aqui do lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela carinha de dona-de-casa ela nunca me enganou. Passou por aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto se mordendo de curiosidade. Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga. Suponho que para cada pessoa que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho.
— O senhor não acha muita pretensão? Pegar um…
— Jactância.
— Pegar um livro velho…
— Alfarrábio.
— O senhor me interrompe!
— Profaço.
— Está me enrolando, não é?
— Tergiversando.
— Quanta lenga-lenga…
— Ambages.
— Ambages?
— Pode ser também evasivas.
— Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!
— Pusilânime.
— O senhor é engraçadinho, não?
— Finalmente chegamos: histriônico!
— Adeus.
— Ei! Vai embora sem pagar?
— Tome seus cinquenta centavos.
— São três reais e cinquenta.
— Como é?
— Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só histriônico estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.
— Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?
— É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende?
— Tem troco para cinco?

O papel da língua portuguesa na carreira do advogado
Por Giulianna Louise Christofoli

Assim que nascemos, já temos o nosso primeiro contato com a língua portuguesa. Entramos na escola e o Português nos acompanha desde o primeiro dia de aula até a formatura. Alguns se apaixonam por ele; muitos, não querem nem sua amizade. Ocorre que, aqueles que no passado não deixaram o Português entrar nas suas vidas, hoje se arrependem e perdem muito por isso.

Sabemos que a língua portuguesa é meio fundamental de comunicação. Necessitamos dela o tempo inteiro. Falar, todos nós sabemos. Agora, falar corretamente…

Sem perceber, as pessoas que não têm intimidade com o Português, perdem muitas oportunidades na vida. Não só na vida profissional, mas na vida social e pessoal. Até quando vamos querer esconder a ideia de que saber falar corretamente é e sempre será essencial? Se aceitássemos essa ideia e buscássemos uma amizade com a língua portuguesa, veríamos que as nossas chances na vida seriam bem maiores.

Hoje em dia, a pessoa que sabe falar bem se destaca. E se passa como diferente, num país em que falar e escrever bem deveria ser comum.

Pois bem, agora que sabemos o quão fundamental é se comunicar bem, imaginemos a sua importância na esfera jurídica.

Primeiramente, vamos tratar dos concursos públicos, febre que vem aumentando nos dias atuais. Os examinadores já se deram conta do papel do Português na esfera pública e não existe um concurso sequer que não caia a matéria mais temida pelos concursandos. A exigência da língua portuguesa é obrigação que deveria vir presente em todas as provas profissionalizantes, para seleção de pessoal. Posso inclusive dizer que a Língua Portuguesa talvez seja a única matéria essencial para todas as áreas profissionais, tanto humanas como exatas, podendo ser considerada como a única que utilizamos a vida inteira, o tempo inteiro. Vai dizer que não é importante?

Agora reflitam sobre a carreira do advogado. Os advogados, profissionais que deveriam merecer extremo respeito, por buscarem fazer “jus à justiça”, sofrem grandes preconceitos. Digo-lhes o motivo: o bendito Português. O advogado que não tiver o conhecimento da sua própria língua, fica prejudicado na carreira e dá maiores chances para os concorrentes. É muito claro que se não combinarmos advocacia com a língua portuguesa, o advogado não saberá se comunicar oralmente, não saberá interpretar a lei da melhor forma e, principalmente, não saberá elaborar peças, atividade fundamental da advocacia.

Quantas vezes nos deparamos com peças mal elaboradas, sustentações orais incoerentes e interpretações sem sentido? Até mesmo a comunicação com outros profissionais do Direito deve observar as formalidades do Português. Esses pequenos detalhes resultam em pontos negativos e a culpa é inteirinha do nosso amigo tão falado.

Se já consegui convencer-lhes da indispensabilidade da nossa língua, pensem então no Exame da Ordem. Eu lhes pergunto: Por que NÃO tem Português no Exame da Ordem de Advogados do Brasil? É neste ponto que eu queria chegar. Esta é uma questão a se discutir. Tudo bem que eliminaríamos muito mais examinandos, o que significa que se eu fosse propor essa mudança no Exame da Ordem, muitos bacharéis em Direito desejariam me matar.

Agora você se pergunta: atenção, Conselho Federal, será que é tão difícil perceber que estamos cheio de advogados ruins no mercado? O Conselho até que percebeu, mas buscou uma solução equivocada: tratou de dificultar a prova da OAB em relação às matérias jurídicas. Isso gera revoltas. Ninguém pode saber tudo de tudo. Se alguém disser a você que sabe tudo de todas as matérias de Direito, é mentira. Nós nos especializamos em uma ou outra matéria, mas em todas não. Pois bem. Em vez de dificultar a parte de Direito, a solução mais plausível seria incluir a matéria de Língua Portuguesa no exame. É tão simples. Se já tem em concurso público, porque não na prova da OAB?

Deixo essa questão a ser pensada. Devemos dar mais importância ao Português, um camarada que está do nosso lado desde o momento em que nascemos e que vai nos acompanhar ao longo da nossa trajetória. Reflitam. Parem de fugir do Português e comecem a correr atrás dele antes que seja tarde.

Ensinar ou não gramática em sala, eis a questão
Por Graciana Oliveira 

Não é foco do blogue (sim, a palavra ‘blog’ já foi adaptada à língua portuguesa), abordar questões que dizem respeito ao ensino, mas li um texto na “Folha de S. Paulo” (11/10/2015, pg. B9) que me achei interessante, pois trata sobre gramática.

O título do texto é “Ministro quer mais gramática no currículo”. O ministro mencionado é Aloizio Mercadante, da Educação, e o currículo é a Base Nacional Comum Curricular (responsável por uniformizar o conteúdo que deve ser ensinado em todo país, mais conhecido como Currículo Nacional) que está sendo reestruturado.

Existe uma discussão centenária entre vários especialistas em educação sobre o ensino de gramática (leia-se, norma culta) na escola. Cada um possui seus argumentos e estes são válidos em parte.

Concordo com o ponto de vista das professoras da comissão responsável pela língua portuguesa. Elas abordam que o ensino de gramática, de forma desvinculada de contexto de leitura e escrita, não é eficiente. Também concordo com o ministro Mercadante que fala da importância de se reforçar o ensino da norma culta na escola.

A norma culta é importante e deve ser abordada na escola, uma vez que é a variação linguística escolhida para avaliar os alunos em vários momentos da vida deles (Enem, concursos ou outros processos seletivos).

O que gera o grande problema, a ineficiência do ensino da norma culta, é a falta de preparo dos profissionais da área, a falta de estrutura das escolas e família, a falta de interesse do aluno pela leitura/escrita etc…

Como se resolve esse rififi (reencontrei esta palavra hoje em outro texto)?

Como professora, o que está em minhas mãos é me tornar uma profissional mais bem preparada, buscando informações, cursos e novas formas de se trabalhar com a minha área em sala. As outras questões precisam ser resolvidas, mas são complexas demais e, se tenho de escolher uma forma de começar a resolver todo o imbróglio, escolho o que realmente posso fazer: começo com a ampliação dos meus conhecimentos.

Sim, eu trabalho a norma culta em sala de forma contextualizada. Alguns alunos assimilam, outros não… Mas isso já é outra discussão…

A nossa língua está a nos exigir uma afirmação global
Por Juca Ferreira

O século XXI começou desafiando a todos nós falantes da língua portuguesa. Está a nos exigir um protagonismo de grandes proporções. Hoje, há uma expressiva presença de nosso idioma em todos os continentes, presença que não para de crescer e tomar maiores dimensões planetárias. Compomos um universo de falantes que supera o de línguas muito mais tradicionais no mundo da cultura e dos negócios. Somos mais falados do que o italiano e o alemão. O francês nos supera apenas quanto ao número de falantes não nativos. Juntos, estamos entre as cinco maiores economias do planeta.

A nossa língua está a nos exigir uma afirmação global, a nos cobrar uma responsabilidade para com ela. Impressiona-me que não tenhamos uma política comum a todos os países que falam o português. Quem há de negar que precisamos definir uma grande estratégia cultural de presença no mundo que abranja todo o nosso território linguístico?

Quem há de subestimar a importância da língua? É grande a sua dimensão social, política, econômica e geopolítica. Ela é muito mais que uma ferramenta de comunicação. Nela, não estão armazenados apenas conhecimentos e informações. A língua é a cultura que ela produz. É ela quem nos dá os sentidos. É o universo desenhado por ela que nos referencia e nos singulariza. A língua gera coesão, nos fortalece no mundo globalizado, “é a casa onde a gente mora”. Nela, se deposita know how, tecnologia. Língua também é economia.

Não subestimemos o assunto. Ele é sério. Estamos diante de uma questão de afirmação da qual não podemos nos furtar. Por meio de nossa cultura podemos afirmar uma visão de mundo, um modo de vida, projetos de civilização fundados em estratégias generosas e abrangentes. Estou convencido de que podemos ser portadores de uma mensagem planetária singular.

No mundo globalizado em que vivemos, nunca houve tantas trocas de ideias, de discurso, de palavras, entre todos os falantes de língua portuguesa – nunca houve tanto conhecimento e reconhecimento mútuo.

O português de Portugal, o português que emerge nos países africanos e a língua que é falada no Brasil formam um só idioma. Não tenho dúvidas que uma ortografia comum, como parte de uma maior interação cultural, nos dará a grandeza e dimensão que nossos artistas e escritores projetam.

É claro que precisamos de uma ortografia uniformizada. É insensato não crer na necessidade de um acordo ortográfico. Possíveis erros de condução não diminuem sua importância, e o que representa para o fortalecimento da língua no contexto global. A diversidade e a riqueza de um português que floresce em vários cantos do planeta, e que a enriquece, sem uma escrita comum podem vir a comprometer a sua unidade.

Precisamos dar novos passos para a consolidação de uma comunidade de língua portuguesa, compartilhar nosso universo cultural num grau e proporção ainda não experimentado. Precisamos fortalecer ações de colaboração e integração mútua rumo a uma maior projeção global.

Convoquemos a todos para a montagem de um estratégia planetária para a língua portuguesa. Convoquemos aqueles que com ela criam, tendo-a como matéria prima, aqueles que a mantém viva, que a recriam diariamente e que expressam seus falares.

Convoquemos os poetas, os escritores, os artistas, os jornalistas, os cronistas, os tradutores, os editores, os professores, os filólogos, os intelectuais, os sociolinguistas, os midialivristras, os críticos literários e, também, os normatizadores. Precisamos de todos, inclusive dos estados nacionais.

Pensemos a língua em suas várias dimensões. Consolidemos um universo cultural comum, não apenas em suas expressões literárias e poéticas, mas também na música, no teatro, no cinema, no pensamento; e em suas inserções na internet, no rádio, no jornalismo, na TV, etc. etc. Pensemos globalmente.

Não podemos, enfim, simplificar o assunto, reduzindo-o a uma questão puramente técnica. Não podemos desconectar a uniformização da ortografia de um contexto cultural mais amplo que diga respeito toda a comunidade lusófona.

Os Efeitos da Comunicação Oral e Escrita na Vida das Pessoas
Por Ertha Renalle 

Talvez uma das coisas mais importantes que o ser humano tem para ser relacionar com as pessoas e que as empresas mais valorizam em um profissional, além de sua formação e experiência, é a comunicação. Saber se comunicar seja com quem for e em qualquer lugar contribui para um bom desenvolvimento pessoal e para uma boa formação profissional.

Mais do que isso, é poder se expressar através das palavras e da escrita, fazendo com que as pessoas compreendam a mensagem que está sendo transmitida. Sendo assim, no caso da linguagem escrita e oral, a comunicação ocorre com a decodificação da mensagem transmitida pelo emissor ou locutor da mensagem e conforme a variedade linguística empregada para se comunicar, o receptor ou interlocutor entenderá ou não a mensagem transmitida.

É importante saber se comunicar com diferentes públicos seja dentro da empresa ou fora dela, como a família e os amigos. Nas empresas, no caso da apresentação de um projeto, por exemplo, a clareza e objetividade na comunicação são fundamentais quando se deseja prender a atenção das pessoas sem cansá-las e nem deixar que elas saiam antes mesmo de terminar de falar.

Vale salientar que falar muito não é falar bem, mas falar bem também não significa falar pouco, mas o suficiente para expor as ideias e ser compreendido. As pessoas também devem ter atenção quando escrevem, para não se deterem a informações desnecessárias durante o desenvolvimento de um assunto para que não haja distorção da informação e nem a ausência de atenção no foco principal do assunto.

Quanto mais conhecemos a natureza daquilo que se quer abordar, mais fácil fica de transmitir as ideias que se deseja passar àquele que lê sobre o assunto.

O ser humano carrega dentro de si a necessidade de comunicar-se, uma vez que se trata de um ser que não nasceu para viver sozinho, mas que vive em grupos e comunidades, conversando e interagindo, aprendendo e adquirindo conhecimento e sabedoria.

A comunicação pode causar grandes efeitos na vida de uma pessoa, pois através dela é possível conseguir um bom emprego, uma promoção para o cargo desejado, ter uma boa produtividade na empresa, construir relacionamentos duradouros com as pessoas, e, além de tudo, uma grande satisfação pessoal e realização profissional.

Mas tão necessário quanto saber se comunicar é saber ouvir, retribuir com a devida atenção para quem está falando e interpretar a mensagem transmitida. (…)

(…) Em se tratando de ler e escrever bem, cultivar o hábito da leitura ajuda a compreender melhor diversos tipos de assuntos e facilita na comunicação oral e escrita, pois vai se adquirindo discernimento para discorrer melhor com as palavras. Quando entendemos melhor as pessoas, os conflitos diminuem e os relacionamentos crescem.

Não se trata de usar palavras difíceis e complicadas num discurso ou em um texto qualquer sem nem ao menos saber ao certo o seu significado, e, se corresponde ou não ao contexto onde se pretende empregá-las, depende de como quem escreve deseja ser entendido por aqueles que vão ler sobre o assunto ou discernir sobre o discurso, mas o bom mesmo é usar uma linguagem simples e de fácil acesso ao entendimento das pessoas.

Norma culta ou norma padrão?
Por Aldo Bizzocchi

Uma grande amiga me perguntou por e-mail o que é norma culta. Ela, que é jornalista, precisa dominar a tal norma para trabalhar. Mas, e quem não trabalha com as palavras, também precisa dominá-la? Devemos seguir as regras da gramática normativa em todas as situações ou só nas formais? Devemos corrigir quem fala “errado” ou ser condescendentes? Essa inquietação não é só de minha amiga: muitas pessoas (se) fazem as mesmas perguntas. Afinal, numa sociedade como a nossa, em que quase tudo é motivo de exclusão, o modo como se fala é um dos maiores alvos do preconceito e da intolerância.

Ia responder à minha amiga também por e-mail, só que a resposta a essas indagações é tão complexa – a menos que, à maneira de muitos gramáticos, eu desse respostas dogmáticas do tipo “isso é assim porque é assim e pronto” – que a mensagem eletrônica se transformou neste artigo que convido minha amiga a ler.

Em primeiro lugar, a língua que falamos, seja qual for (português, inglês, coreano…), não é uma, são várias. Tanto que um dos mais eminentes gramáticos brasileiros, Evanildo Bechara, disse a respeito: “Todos temos de ser poliglotas em nossa própria língua”. Qualquer um sabe que não deve falar em uma reunião de trabalho como falaria numa mesa de bar. Ou seja, a língua varia. E o faz em função de quatro parâmetros básicos. Varia no tempo (daí o português medieval, renascentista, do século 19, dos anos 40, de hoje em dia), varia no espaço (por isso temos um português lusitano, brasileiro, e mais, um português carioca, paulista, sulista, nordestino), varia segundo a escolaridade do falante (resultando em duas variedades de língua: a escolarizada e a não escolarizada) e finalmente varia segundo a situação de comunicação, isto é, o local em que nos encontramos, a pessoa com quem falamos e o motivo da nossa comunicação – e, nesse caso, há duas variedades de fala: formal e informal.

Tenho dito sempre que a língua é como a roupa que vestimos: há um traje para cada ocasião. Há situações em que se deve usar traje social, outras em que o mais adequado é uma roupa casual, sem falar nas situações em que se usa pijama, maiô ou mesmo nada (para tomar banho esse é o traje ideal). Trata-se de normas indumentárias, pois pressupõem um uso “normal”. Não é proibido ir à praia de terno, mas não é normal, é um desvio que causa estranheza.

A língua funciona do mesmo modo: há uma norma para entrevistas de emprego, audiências judiciais, textos técnicos; há outra para fazer compras no supermercado, bater papo, falar com a empregada. Portanto, a norma culta é o padrão de linguagem que se deve usar em situações formais. Do ponto de vista temporal, ela tende a ser conservadora, refletindo um padrão que recobre pelo menos o último século; em termos geográficos, corresponde ao linguajar dos grandes centros (no caso brasileiro, especialmente os do Sudeste). Em termos sociais, culturais e situacionais, é a norma das classes mais altas e mais escolarizadas, nas situações de relacionamento em que deve haver distanciamento respeitoso entre os interlocutores.

Portanto, assim como há lugares onde se deve usar terno e outros em que o melhor é calça jeans e tênis, todos dizemos “tô, tá” em vez de “estou, está”, “a gente” em lugar de “nós”, “sentar” em vez de “sentar-se”, “na minha casa” por “em minha casa”, e assim por diante, nas situações informais (e hoje em dia até em algumas formais). Não empregar o padrão culto nesses casos não é erro, é bom senso. Errado é falar como as pessoas incultas (“nós foi, a gente somos, teje, menas”). Só que ninguém escolarizado fala assim, a não ser de brincadeira. E quem fala assim não o faz porque quer, mas porque não teve a chance de aprender “as várias línguas dentro da língua”. Ou seja, está condenado a ser monoglota. Enquanto nós temos no guarda-roupa opções de trajes para todas as ocasiões, o indivíduo não escolarizado é como um indigente que vai maltrapilho a todos os lugares.

A questão é: devemos usar a norma culta em todas as situações? Evidentemente que não, sob pena de soarmos pedantes. Dizer “nós fôramos” em vez de “a gente tinha ido” numa conversa de botequim é como ir de terno à praia. Mas saudar com um “E aí, tudo beleza?” o entrevistador a quem fomos pleitear um emprego é como ir trabalhar de pijama.

E quanto a corrigir quem fala errado? É claro que os pais devem ensinar seus filhos a se expressar corretamente, assim como é dever do professor corrigir o aluno, mas será que tenho o direito de advertir o balconista que me cobra “dois real” pelo cafezinho? Ao fazê-lo, não estaria humilhando essa pessoa, ainda que com a melhor das intenções? Mais ainda, não estaria sendo ofensivo, insolente, intrometido? Não estaria fazendo à toa um inimigo? É justo criticar a camiseta puída do catador de sucata sabendo que ele não tem condições de comprar uma nova? Espero que essas ponderações ajudem a esclarecer as dúvidas de minha amiga. E dos demais leitores.

Língua Portuguesa
Por Luisa Wink 

“A língua portuguesa é cheia de detalhes. Mesmo para os falantes nativos do idioma, algumas regras de ortografia e gramática podem confundir na hora de falar e, principalmente, de escrever. Ter um bom domínio do nosso idioma é essencial até mesmo para quem não trabalha como redator profissional. Afinal, um pequeno deslize no texto pode comprometer toda mensagem que você está querendo passar. Nunca saberemos tudo que há para saber sobre um idioma, afinal, a língua é viva e está em constante transformação. Porém, um bom redator está sempre tentando ser a melhor versão de si  mesmo e a forma mais eficaz de lidar com problemas linguísticos e adquirir conhecimento é lendo, estudando e buscando tanto se aprofundar no que sabe quanto conhecer novos assuntos.”

A Importância da Língua Portuguesa para a Carreira
Por Ana Cláudia Madaleno

Dominar a norma culta da língua portuguesa está se tornando cada vez mais importante para o sucesso de profissionais de todas as áreas. No passado, quando diretores, superintendentes e gerentes podiam contar com uma secretária, a falta de domínio da língua portuguesa não era tão notada, afinal, quem precisava escrever corretamente era ela. Hoje isso mudou. Com as empresas cada vez mais “enxutas”, muitas vezes os executivos ou não possuem ou precisam dividir a mesma assistente. Assim, obrigatoriamente tiveram que começar a escrever relatórios, preparar documentos e enviar e-mails.

Qual o motivo de tanta dificuldade para elaborar um bom texto? Resumidamente, o português é um idioma muito complexo e uma das principais dificuldades é que a norma culta é bastante diferente da língua normalmente falada. E a falta de domínio do idioma pode comprometer profundamente a imagem do profissional, colocando em dúvida a qualidade de seu trabalho. A imagem negativa projetada pela má comunicação dos funcionários é muito mal recebida tanto pelo público interno como o externo (clientes e concorrentes). Nesse contexto, falar corretamente é fundamental para o sucesso de uma organização, e os empregadores valorizam cada vez mais os funcionários que sabem se expressar com fluência e corretamente.

Aqueles que cometem erros de português ao falar e não são capazes de escrever dez linhas gramaticalmente corretas e com clareza, passam aos outros uma péssima imagem de pessoa mal informada, de nível cultural baixo, que não lê. Ou seja, podem ser grandes especialistas em suas áreas de atuação, mas que provavelmente não poderão transmitir seus valores.

O avanço da comunicação digital tem aumentado a necessidade de o profissional escrever. O número de mensagens que circulam nas empresas aumenta exponencialmente ano a ano. Nunca se escreveu tanto, embora não esteja aí qualquer indício de qualidade dos textos produzidos. Há inclusive o componente da velocidade que transporta pela rede uma implícita indulgência pelos maus-tratos à língua, antes mesmo de a mensagem ser enviada.

A mensagem eletrônica, apesar de incorporar alguns elementos da fala, não deixa de ser um texto escrito, o que, por si só, aumenta a exigência de precisão. Ouve-se com freqüência que escrever é mais difícil do que falar. Há uma razão para isso. Na linguagem oral, existem mais MEC anismos para se checar se a mensagem foi entendida corretamente. Há uma série de intervenções ‘não entendi’, ‘é isso mesmo?’, retomadas de trechos da conversa que ajudam a compreensão, além de contar com outros elementos como entonação, variação de voz, ironias. Na linguagem escrita não existem esses elementos, por isso precisa ser dotada de muita clareza. Uma simples vírgula pode comprometer totalmente um texto, podendo provocar realmente desastres na empresa, na família, na escola.

O problema do português ruim, evidentemente, começa muito antes de alguém se tornar um executivo. E não dá para discordar da enorme parcela de culpa das escolas e do sistema de ensino brasileiro. Para começar, a maior parte das escolas se limita a cumprir o número mínimo de aulas de português estabelecido por lei. Poucas dedicam mais horas à disciplina.

Para completar, o português foi abolido da grade curricular de maior parte das universidades. Os alunos se habituaram a considerá-lo uma disciplina de menor importância, algo sem relação direta com a vida prática. Resultado: o jovem termina o segundo grau com deficiências graves e as carrega para a vida profissional.

A linguagem escrita faz parte da vida prática e dentre as várias habilidades exigidas do profissional, a de se expressar nas linguagens oral e escrita tornou-se uma das mais prementes no mundo do trabalho. Sabemos também que ao dominar a gramática, será mais fácil demonstrar conhecimentos técnicos adquiridos, mostrando antes habilidade com a língua portuguesa. Dessa forma, é essencial a conscientização de que o sucesso profissional depende tanto de saber escrever português com clareza, quanto dos outros conhecimentos técnicos.

Que ódio
Por Gregório Duvivier

Detesto usar este espaço para falar sobre coisas que odeio. A razão é simples: a crônica é um pedaço de amor cercado de ódio por todos os lados. A crítica odeia o filme, o editorial odeia o governo, a carta do leitor odeia o editorial (e o governo).

Queria que este espaço fosse dedicado aos passarinhos que pousaram no parapeito. Mas até hoje nenhum passarinho pousou no meu parapeito – os cocôs de passarinho, em compensação, não param de surgir. O ódio, na maior parte das vezes, é irracional.

Odeio os carros quando tô a pé. Odeio os pedestres quando tô de bicicleta. Odeio os ônibus quando tô de carro. Odeio os ônibus quando tô de ônibus. Odeio o mundo quando eu acordo. Odeio cigarro. E odeio quem se incomoda com cigarro quando eu tô fumando. Odeio acordar cedo e odeio acordar tarde. Odeio o Brasil e odeio, ao mesmo tempo, as pessoas que odeiam o Brasil.

Tem ódio que não faz o menor sentido. Mas tem ódio que faz.

Por exemplo: sem nenhuma razão plausível, acrescentaram um pitoco no meio da tomada, tornando obsoletos todos os eletrodomésticos do país. Não por acaso a tomada tem três pinos como um tridente: eu tenho certeza de que foi obra do demônio. Ou do Eduardo Cunha. O que dá no mesmo.

Mas pior que a tomada de três pinos (tá bom: tão ruim quanto) é o novo (que já nasceu velho) acordo (com o qual ninguém está de acordo) ortográfico. O desacordo é a tomada de três pinos da língua portuguesa.

Não bastasse termos poucos livros e uma população que não lê, os gramáticos tornaram obsoletos todos os livros do país. De 1911 até hoje, o português brasileiro sofreu cinco reformas ortográficas. Nesse mesmo período, o inglês, o francês e o espanhol não sofreram nenhuma.

E o pior: a reforma não faz o menor sentido. Caiu o hífen em pé de moleque. Mas não caiu em pé-de-meia. Caiu em pão de ló. Mas não em pão-de-leite. Caiu o hífen de copiloto, e junto com ele o de cocomandante. (Sim, isso mesmo. Agora o cocô é o mandante.)

Dos acentos, o trema é o que faz menos falta (embora tivesse grande valor afetivo). Agora “para” de parar se escreve igual a para de “em direção a”. O que antes parava agora não para mais. A manchete “trânsito para São Paulo” pode significar duas coisas opostas. A população que já não sabia escrever agora sabe menos.

Quem ganha com isso? Os gramáticos, claro, classe com a qual ninguém se importa até o momento em que se proclamam indispensáveis. Os gramáticos são os fabricantes de benjamim da língua portuguesa.

A Língua Portuguesa no Enem – Gramática
Por Mayra Pavan

A gramática não é abordada no Enem desvinculada do texto, mas deve ser analisada unida à interpretação. Portanto, não basta saber o que é um pronome ou uma conjunção, é preciso entender sua função para a oração, bem como os efeitos de sentido que estabelecem. Por exemplo, qual o efeito que gera dentro do texto o uso da conjunção coordenativa adversativa? De oposição, não é? Logo, não basta simplesmente saber a classificação da conjunção, o mais importante é entender o efeito de sentido que ela estabelece no texto.

Outro aspecto importante é entender que a prova do Enem busca reduzir o preconceito linguístico, logo saber como se caracteriza a linguagem culta e coloquial e conhecer os diferentes níveis de linguagem são aspectos de suma importância. Atente para o fato de que a linguagem não será a mesma o tempo todo, dependendo, portanto, do interlocutor (quem fala/ para quem se fala), do contexto (situação), do momento histórico, do meio pelo qual o texto será divulgado etc.

Outra dica é não perder o foco do texto, pois, mesmo quando a questão analisa aspectos gramaticais, a leitura crítica, a associação entre os textos, o diálogo entre as linguagens e a interpretação de imagens devem continuar como atitudes constantes do candidato no Enem, pois, como já mencionado, a gramática apresenta-se de forma contextualizada.

O fato de a gramática não ser cobrada como antigamente não significa que não seja necessário conhecer as regras, logo, é importante revisar os conteúdos. É bom que todos sejam revisados, pois mesmo os que não são cobrados diretamente na prova de Português, como regência, concordância, regras ortográficas, pontuação, entre outros, serão avaliados na redação.

Para você estar passando adiante
Por Ricardo Freire 

Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar recortando e possa estar deixando discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar falando sem estar espalhando essa praga terrível da comunicação moderna, o gerundismo. Você pode também estar passando por fax, estar mandando pelo correio ou estar enviando pela internet.

O importante é estar garantindo que a pessoa em questão vá estar recebendo esta mensagem, de modo que ela possa estar lendo e, quem sabe, consiga até mesmo estar se dando conta da maneira como tudo o que ela costuma estar falando deve estar soando nos ouvidos de quem precisa estar escutando.

Sinta-se livre para estar fazendo tantas cópias quantas você vá estar achando necessárias, de modo a estar atingindo o maior número de pessoas infectadas por esta epidemia de transmissão oral.

Mais do que estar repreendendo ou estar caçoando, o objetivo deste movimento é estar fazendo com que esteja caindo a ficha das pessoas que costumam estar falando desse jeito sem estar percebendo.

Nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos interlocutores que, sim, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito. Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados a estar emigrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a estar ouvindo frases assim o dia inteirinho. Sinceramente: nossa paciência está ficando a ponto de estar estourando.

O próximo “Eu vou estar transferindo a sua ligação” que eu vá estar ouvindo pode estar provocando alguma reação violenta da minha parte. Eu não vou estar me responsabilizando pelos meus atos.

As pessoas precisam estar entendendo a maneira como esse vício maldito conseguiu estar entrando na linguagem do dia a dia.

Tudo começou a estar acontecendo quando alguém precisou estar traduzindo manuais de atendimento por telemarketing. Daí a estar pensando que “We’ll be sending it tomorrow” possa estar tendo o mesmo significado que “Nós vamos estar mandando isso amanhã” acabou por estar sendo só um passo.

Pouco a pouco a coisa deixou de estar acontecendo apenas no âmbito dos atendentes de telemarketing para estar ganhando os escritórios. Todo mundo passou a estar marcando reuniões, a estar considerando pedidos e a estar retornando ligações. A gravidade da situação só começou a estar se evidenciando quando o diálogo mais coloquial demonstrou estar sendo invadido inapelavelmente pelo gerundismo.

A primeira pessoa que inventou de estar falando “Eu vou tá pensando no seu caso” sem querer acabou por estar escancarando uma porta para essa infelicidade linguística estar se instalando nas ruas e estar entrando em nossas vidas. Você certamente já deve ter estado estando a estar ouvindo coisas como “O que cê vai tá fazendo domingo?” ou “Quando que cê vai tá viajando pra praia?”, ou “Me espera, que eu vou tá te ligando assim que eu chegar em casa”.

Deus, o que a gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam entendendo o que esse negócio pode tá provocando no cérebro das novas gerações?

A única solução vai estar sendo submeter o gerundismo à mesma campanha de desmoralização à qual precisaram estar sendo expostos seus coleguinhas contagiosos, como o “a nível de”, o “enquanto”, o “pra se ter uma idéia” e outros menos votados.

A nível de linguagem, enquanto pessoa, o que você acha de tá insistindo em tá falando desse jeito?

O que é Português Instrumental?
Por Renato Hendrigo

Português Instrumental é o estudo da língua portuguesa, que objetiva a capacitação para a compreensão, para a interpretação e para a composição de textos.

Muitos estudantes e profissionais têm dúvidas sobre o texto técnico. Equívocos de concordância, de regência e a elaboração de textos sem clareza e objetividade são as maiores deficiências apresentadas por quem redige tecnicamente um texto.

Atualmente, as empresas investem cada vez mais nos treinamentos de seus funcionários. Investem em cursos de informática, atendimento ao cliente e técnicas de vendas, entretanto, se não houver domínio do idioma pátrio, o resultado final será pouco satisfatório.

Comunicar-se bem, tanto na expressão oral quanto na escrita, exige objetividade, clareza e coesão. Evitar modismos e gírias, além de cuidar da ortografia, correção e coerência das ideias apresentadas ajudam bastante na boa comunicação. Ainda não se deve esquecer de fazer boas leituras (livros literários, livros técnicos, revistas, jornais e artigos).

Expressões como “vou esta transferindo” ou “Aonde você mora?”, utilizadas na oralidade e na escrita, podem comprometer a credibilidade de seu texto, de seu argumento, ou até mesmo de seus negócios. Imagine, então, “erros” de português em um currículo. O candidato(a) pode ser eliminado(a) antecipadamente do processo seletivo.

Vivemos em uma era altamente tecnológica e que exige rapidez nas comunicações. Assim, as possibilidades de “erros”, sejam elas por meio do correio eletrônico (e-mail), memorandos, cartas comerciais e outros aumentam. Se a agilidade é importante em plena era da “sociedade conectada”, comunicar-se bem e de forma eficiente em língua portuguesa, tornou-se algo essencial.

A reforma da reforma
Por Céu Marques

Reformar a nova reforma ortográfica: essa é a intenção do professor Ernani Pimentel e sua proposta já está em análise no Congresso Nacional. Segundo ele, o projeto “Simplificando a Ortografia” é uma forma de tornar a língua portuguesa mais fácil de ser compreendida. Uns concordam, outros discordam veementemente.

Não sou contra nem a favor deste novo projeto, pois ainda não o conheço em detalhes. Antes de criticarmos, acredito que deveríamos ter conhecimento do assunto. Vamos estudá-lo para termos uma opinião fundamentada.

Num primeiro momento, é normal acharmos que isso está virando uma bagunça, pois nem conseguimos assimilar a última reforma ortográfica. Estamos cansados de tanta mudança na língua portuguesa, mas lembremos que ela é viva e estará sempre à mercê de futuras modificações. Se forem benéficas, por que não aceitá-las?

O importante é estarmos dispostos a entender os motivos que levam especialistas da área a serem contra ou a favor de todas essas mudanças. Se nem eles conseguem chegar a um consenso, imagine nós? Temos, portanto, total liberdade à dúvida.

Vamos juntos correr atrás de respostas que nos sejam coerentes para, no final, termos argumentos plausíveis para falarmos sobre o assunto.

Obs.: Conheça melhor o projeto Simplificando a Ortografia.

Minha Língua é a Portuguesa (COM CERTEZA!)
Por Jô Souza

O que é um povo sem a sua língua materna? É inconcebível a existência e o desenvolvimento de uma sociedade que não se expresse, seja de forma oral ou escrita, por intermédio desse nobre patrimônio cultural. E a nossa a Língua Portuguesa , uma das mais belas e faladas do mundo (quiçá uma das mais maltratadas também), é motivo de ufanismo para os que a admiram e a têm como uma valiosa ferramenta de comunicação imprescindível nas relações interpessoais e na própria concepção e formação da identidade de cada ser no contexto social em que está inserido.

Vocês fazem ideia da enxurrada de palavras que proferimos no nosso dia a dia? Do sujeito mais monossilábico ao verborrágico que fala demais, mas não tem nada a dizer. Essa expressividade sensorial/textual/oral se materializa de forma abrangente e íntima nos mais diversos canais de comunicação/redes de relacionamento (físicos ou virtuais): no canto do poeta, no bate-papo entre amigos, na explanação do professor, no degustar das palavras que emergem da leitura ou mesmo na receita de uma suculenta macarronada. Tudo isso serve para verbalizar ideias, traduzir sentimentos, narrar histórias, construir conhecimentos; enfim, partilhar visões de mundo que enriquecem grandemente as relações por meio da linguagem. Ante o exposto, nota-se que esta é de suma importância, pois é intrínseca em todos os âmbitos sociais do nosso cotidiano, manifestando um universo grandioso de vastas possibilidades e infinitas descobertas.

A língua: suas variantes, sutilezas e particularidades um fenômeno tão indissociável no que tange os aspectos gramaticais. ̶P̶o̶r̶i̶s̶s̶o̶ POR ISSO, dominá-la representa a aquisição de um AGENTE transformador e libertador, que A GENTE precisa PÔR em prática no sentido de explorar todo o potencial proporcionado POR ela. Do culto ao coloquial, das expressões ̶m̶e̶n̶a̶s̶ MENOS usuais energúmeno, achacador, idiossincrasia, ósculo às mais corriqueiras democracia, corrupção, ditadura, impeachment. O respeito ou a transgressão às normas vigentes que regem a Gramática reflete intimamente sobre a pessoa que fala, muito MAIS do que se possa imaginar. MAS muitos a renegam, tendo como pretexto a rigidez das regras e complicadas EXCEÇÕES. Fazer uso de maneira ponderada, ̶c̶o̶n̶s̶e̶rt̶e̶z̶a̶ COM CERTEZA é um pré-requisito essencial A FIM de se evitar a banalização e o constrangimento evidenciados nas reincidentes práticas perversas que se proliferam no mais alto grau de gramaticídio(perdoe-me o infame trocadalho do carilho) ou outra agravante de natureza AFIM. SENÃO, daqui a pouco, ̶v̶a̶m̶o̶s̶ ̶e̶s̶t̶a̶r̶ ̶a̶p̶r̶e̶n̶d̶e̶n̶d̶o̶ APRENDEREMOS o dialeto dos falantes do planeta Analfa, ONDE tudo é possível. AONDE vamos chegar até encontrar A solução? Aliás, HÁ solução? ÀS VEZES penso que não. Talvez e̶s̶t̶e̶j̶e̶ ESTEJA enganado. ̶D̶e̶r̶r̶e̶p̶e̶n̶t̶e̶ DE REPENTE, as coisas mudam (aí será um ̶p̶r̶e̶v̶i̶l̶ég̶i̶o̶ PRIVILÉGIO, uma ̶b̶e̶n̶ça̶o̶ BÊNÇÃO). DESDE que HAJA comprometimento e cada um AJA com bom senso. SE NÃO for assim, ̶h̶a̶v̶e̶r̶ão̶ HAVERÁ motivos de sobra para ̶m̶i̶m̶ EU dizer: parem o mundo que eu quero descer!

̶A̶o̶ A meu ver, cada indivíduo fala do ̶g̶e̶i̶t̶o̶ JEITO que ̶q̶u̶i̶z̶e̶r̶ QUISER, conforme suas aptidões e/ou necessidades. Não tem nada A VER com preconceito linguístico, o que tem que HAVER é o respeito, independentemente do meio adotado para se comunicar: gíria, internetês, barbarismo ou bizarrice todos ̶t̶e̶m̶ TÊM a liberdade para oferecer duzentas gramas de mortandela a um mendingo. É até um ato de generosidade; ou mesmo pedir um chopes e dois pastel. Embora ̶s̶e̶j̶e̶ SEJA um tanto indigesto). Vale ressaltar que o MAU uso da língua pode se tornar um ̶i̶m̶p̶e̶c̶i̶l̶h̶o̶ EMPECILHO, ̶h̶a̶j̶a̶ ̶v̶i̶s̶t̶o̶ HAJA VISTA que uma vírgula MAL-empregada pode distorcer o sentido da mensagem e confundir o interlocutor. Concorda ̶c̶o̶m̶ ̶m̶i̶g̶o̶ COMIGO? Não?! POR QUE discorda? Pode falar POR QUÊ! Diga-me, PORQUE assim poderei encontrar um PORQUÊ para convencê-lo do contrário.

Espero que ESTA leitura não tenha sido PERDA de tempo, TAMPOUCO maçante. Agora que falta TÃO POUCO e ESTÁ quase terminando, não PERCA a paciência! Bem, se você chegou até aqui, acredito que o̶u̶v̶e̶ HOUVE uma empatia entre ̶e̶u̶ MIM e você. Portanto, digo: O̲B̲R̲I̲G̲A̲D̲O̲!

Em suma: a pluralidade vocabular, bem como todas as nuances que envolvem o nosso instigante idioma, é sinônimo de uma inesgotável fonte de riqueza singular, despertando o mais profundo e inebriante encantamento na alma dos seus amantes, que nutrem um sentimento inenarrável de apreço pela nossa inestimável e exuberante Língua Portuguesa, muito mais do que possam supor nossa vã e vil filosofia.

Afinal, o certo é yoga ou ioga?
Por Thiago Perin e Carlos Eduardo Gonzales Barbosa

Vemos de tudo por aí: yoga, ioga, iôga, yóga, e assim vai. Mas, de verdade, qual é a forma correta de escrever o nome dessa prática indiana?

Com Y e com I – Como é a forma mais usual da palavra no inglês, que é a língua mais falada internacionalmente, a grafia YOGA se tornou a predominante no mundo, sendo adotada até mesmo na Índia. Quem explica é o professor de sânscrito Carlos Eduardo Gonzales Barbosa: “mas, quando passou a ser utilizada no Brasil, a palavra foi incorporada à nossa língua com a grafia IOGA. Em português, essa é a forma mais adequada”, aponta.

Escolha a sua – “Como yoga é um vocábulo sânscrito, a grafia original é feita utilizando um sistema de escrita que não existe no Ocidente. Com o tempo, a palavra foi transposta para nosso alfabeto de maneiras variadas, o que impede que exista uma única forma certa de escrevê-la”, explica o professor. Ou seja: não tem como errar. Aliás, tem isso: erra quem afirma que “sua” forma de escrever é a única correta. “Eu uso YOGA, porque dou aulas de sânscrito e estou habituado à palavra nessa língua. Mas posso assegurar que adotar a forma em português, IOGA, não é nem incorreto, nem ofensivo, e nem sequer incômodo. Afinal, a grafia do nome não prejudica nem ajuda a prática que ele representa”, diz.

Quanto à acentuação – A regra gramatical da língua portuguesa não permite que IOGA seja acentuada. YOGA, segundo Carlos Eduardo, também não possui qualquer sinal diacrítico que necessite de representação por acento. “Usá-lo, portanto, é inadmissível em ambos os casos”, aponta ele.

Variações de pronúncia – “No sânscrito, não há diferença entre os fonemas ‘ó’ e ‘ô’. Isso significa que, para um falante dessa língua, os dois são exatamente iguais”, ensina o especialista. “Existe um certo consenso em meios acadêmicos que aponta a pronúncia com ‘ô’, fechado, como a mais correta. Mas, na verdade, tanto faz”.

Questão de gênero – Em sânscrito, a palavra é masculina: O YOGA. Em português, feminina: A IOGA. “Escolha uma das formas e bom proveito. A comunicação é livre e, desde que aquilo que designamos com a palavra esteja correto e seja entendido, não há mal em utilizar a pronúncia que melhor lhe aprouver”, encerra. Afinal de contas, intolerância não combina muito com o espírito de liberdade do yoga, não é?

Resumindo a história – Tanto o yoga quanto a ioga estão corretos. As duas formas não levam acento. O som da letra “o” pode ser aberto ou fechado.

Obs.: Carlos Eduardo Gonzales Barbosa é formado em sânscrito pela USP, estuda a cultura indiana e dá aulas há mais de 30 anos. Tradutor dos Yoga Sutras de Patanjali para o português, é o responsável pelo site www.yogaforum.org.

Tecnologia
Por Luis Fernando Veríssimo

Para começar, ele nos olha nos olha na cara. Não é como a máquina de escrever, que a gente olha de cima, com superioridade. Com ele é olho no olho ou tela no olho. Ele nos desafia. Parece estar dizendo: vamos lá, seu desprezível pré-eletrônico, mostre o que você sabe fazer. A máquina de escrever faz tudo que você manda, mesmo que seja a tapa. Com o computador é diferente. Você faz tudo que ele manda. Ou precisa fazer tudo ao modo dele, senão ele não aceita. Simplesmente ignora você. Mas se apenas ignorasse ainda seria suportável. Ele responde. Repreende. Corrige. Uma tela vazia, muda, nenhuma reação aos nossos comandos digitais, tudo bem. Quer dizer, você se sente como aquele cara que cantou a secretária eletrônica. É um vexame privado. Mas quando você o manda fazer alguma coisa, mas manda errado, ele diz “Errado”. Não diz “Burro”, mas está implícito. É pior, muito pior. Às vezes, quando a gente erra, ele faz “bip”. Assim, para todo mundo ouvir. Comecei a usar o computador na redação do jornal e volta e meia errava. E lá vinha ele: “Bip!” “Olha aqui, pessoal: ele errou.” “O burro errou!”

Outra coisa: ele é mais inteligente que você. Sabe muito mais coisa e não tem nenhum pudor em dizer que sabe. Esse negócio de que qualquer máquina só é tão inteligente quanto quem a usa não vale com ele. Está subentendido, nas suas relações com o computador, que você jamais aproveitará metade das coisas que ele tem para oferecer. Que ele só desenvolverá todo o seu potencial quando outro igual a ele o estiver programando. A máquina de escrever podia ter recursos que você nunca usaria, mas não tinha a mesma empáfia, o mesmo ar de quem só aguentava os humanos por falta de coisa melhor, no momento. E a máquina, mesmo nos seus instantes de maior impaciência conosco, jamais faria “bip” em público.

Dito isto, é preciso dizer também que quem provou pela primeira vez suas letrinhas dificilmente voltará à máquina de escrever sem a sensação de que está desembarcando de uma Mercedes e voltando à carroça. Está certo, jamais teremos com ele a mesma confortável cumplicidade que tínhamos com a velha máquina. É outro tipo de relacionamento, mais formal e exigente. Mas é fascinante. Agora compreendo o entusiasmo de gente como Millôr Fernandes e Fernando Sabino, que dividem a sua vida profissional em antes dele e depois dele. Sinto falta do papel e da fiel Bic, sempre pronta a inserir entre uma linha e outra a palavra que faltou na hora, e que nele foi substituída por um botão, que, além de mais rápido, jamais nos sujará os dedos, mas acho que estou sucumbindo. Sei que nunca seremos íntimos, mesmo porque ele não ia querer se rebaixar a ser meu amigo, mas retiro tudo o que pensei sobre ele. Claro que você pode concluir que eu só estou querendo agradá-lo, precavidamente, mas juro que é sincero.

Quando saí da redação do jornal depois de usar o computador pela primeira vez, cheguei em casa e bati na minha máquina. Sabendo que ela agüentaria sem reclamar, como sempre, a pobrezinha.

Abraço Caudaloso
Por Gregorio Duvivier

Amizade entre cronistas é um perigo: todo papo esbarra em crônica, já que toda crônica é uma espécie de papo. Foi numa conversa com o Antonio Prata, meu ex-amigo-platônico -“ex” não por não ser mais amigo mas por não ser mais platônico- que a bola começou a quicar. “Isso dá uma crônica”, ele disse. Mas nenhum dos dois escreveu, por escrúpulos de estar roubando a ideia do outro. Eu, que tenho menos escrúpulos e menos ideias, resolvi escrever.

Palavras, percebemos, são pessoas. Algumas são sozinhas: Abracadabra. Eureca. Bingo. Outras são promíscuas (embora prefiram a palavra “gregária”): estão sempre cercadas de muitas outras: Que. De. Por.

Algumas palavras são casadas. A palavra caudaloso, por exemplo, tem união estável com a palavra rio -você dificilmente verá caudaloso andando por aí acompanhada de outra pessoa. O mesmo vale para frondosa, que está sempre com a árvore. Perdidamente, coitado, é um advérbio que só adverbia o adjetivo apaixonado. Nada é ledo a não ser o engano, assim como nada é crasso a não ser o erro. Ensejo é uma palavra que só serve para ser aproveitada. Algumas palavras estão numa situação pior, como calculista, que vive em constante ménage, sempre acompanhada de assassino, frio e e.

Algumas palavras dependem de outras, embora não sejam grudadas por um hífen -quando têm hífen elas não são casadas, são siamesas. Casamento acontece quando se está junto por algum mistério. Alguns dirão que é amor, outros dirão que é afinidade, carência, preguiça e outros sentimentos menos nobres (a palavra engano, por exemplo, só está com ledo por pena -sabe que ledo, essa palavra moribunda, não iria encontrar mais nada a essa altura do campeonato).

Esse é o problema do casamento entre as palavras, que por acaso é o mesmo do casamento entre pessoas. Tem sempre uma palavra que ama mais. A palavra árvore anda com várias palavras além de frondosa. O casamento é aberto, mas para um lado só. A palavra rio sai com várias outras palavras na calada da noite: grande, comprido, branco, vermelho -e caudaloso fica lá, sozinho, em casa, esperando o rio chegar, a comida esfriando no prato.

Um dia, caudaloso cansou de ser maltratado e resolveu sair com outras palavras. Esbarrou com o abraço que, por sua vez, estava farto de sair com grande, essa palavra tão gasta. O abraço caudaloso deu tão certo que ficaram perdidamente inseparáveis. Foi em Manoel de Barros. Talvez pra isso sirva a poesia, pra desfazer ledos enganos em prol de encontros mais frondosos.

Juiz Rui Teixeira proíbe Acordo Ortográfico

“Os cágados continuam a ser animais e não algo malcheiroso e a Língua portuguesa permanece inalterada até ordem em contrário”, escreveu o magistrado.

O juiz Rui Teixeira, que conduziu a instrução do processo “Casa Pia” e que agora está colocado no Tribunal de Torres Vedras, não quer os pareceres técnicos sociais com o novo Acordo Ortográfico. O magistrado enviou uma nota à Direcção Geral de Reinserção Social (DGRS) em Abril, onde se podia ler que esta “fica advertida que deverá apresentar as peças em Língua Portuguesa e sem erros ortográficos decorrentes da aplicação da Resolução do Conselho de Ministros 8/2011 (…) a qual apenas vincula o Governo e não os tribunais”.

A DGRS pediu um esclarecimento ao juiz, tendo este respondido que “a Língua Portuguesa não é resultante de um tal «acordo ortográfico» que o Governo quis impor aos seus serviços”, diz o juiz, acrescentando que “nos tribunais, pelo menos neste, os factos não são fatos, as actas não são uma forma do verbo atar, os cágados continuam a ser animais e não algo malcheiroso e a Língua portuguesa permanece inalterada até ordem em contrário”.

Declaração de Amor
Por Clarice Lispector

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança da língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

 Como uma vírgula acabou com um namoro no dia dos namorados
Por Dílson Catarino

Conta-se que, em Palmeirinha do Vale, cidade de dezessete mil viventes, que se situa perto de Santana do Arrebol do Oeste, havia uma professora de português, extremamente rígida, de nome Austeresa de Jesus. Ela era de tal modo rigorosa para com os alunos que estes temiam encontrá-la mesmo no dia a dia, na praça central, na mercearia, na farmácia. 

Dizem que ela interpelava seus pequenos educandos, estivessem onde estivessem, sobre as mais variadas regras gramaticais. Ai de quem não soubesse a resposta: ela sacava seu caderninho rosa, anotava o nome da vítima, a pergunta que lhe fizera, a resposta dada –ou a falta dela– e o quanto valia relativamente à nota escolar.

Dependendo do grau de dificuldade da pergunta, ela diminuía 0,1, 0,2 ou 0,5 da nota que o aluno tirasse na prova seguinte. Era um suplício para as pobres crianças palmeirinhenses.

Quando Austeresa era jovem, enamorou-se de um belo rapaz, também professor de português, de nome Telos Alonso. Ele, porém, não tinha a mesma capacidade intelectiva dela nem a mesma habilidade em sala de aula nem a mesma rigidez. Era um moleirão a bem dizer, que nem gostava muito de estudos aprofundados. As maldizentes até comentavam que ele não era homem para uma mulher como Austezinha, como a chamavam carinhosamente.

O namoro entre eles durou exatamente onze meses e vinte e sete dias. O estopim para o término do relacionamento foi um cartão que ele lhe mandara no dia dos namorados em que escrevera “Para a minha namorada Austereza de Jesus”. Ao ler esses dizeres, quase teve uma síncope; chegou a perder o juízo. Pegou de uma caneta e imediatamente escreveu-lhe uma pequena carta, em que dizia:

“Telos Alonso, é de conhecimento geral em Palmeirinha que tolero os maiores sofrimentos, que suporto as maiores provações. É, no entanto, também comentário corrente que há duas situações que jamais enfrentarei: traição e erro gramatical. E você, meu ex-amado, acabou de cometer ambos: você, professor de português, sabe muito bem que os nomes próprios femininos formados pela posposição do sufixo -esa ao radical se escrevem com S, não com Z.

Como meu namorado há quase um ano ainda erra meu nome, trocando letras? Não me importo tanto pelo erro de meu nome, mas importo-me –e muito– com o trocar letras. Poderia ter-me chamado de Austerise; não me atenazaria tanto, pois teria usado as letras adequadas: nomes femininos terminados em -ise se escrevem com S, como Denise e Anelise; mas ignorar que se escrevem com -ês e -esa nomes de pessoas, como Inês, Teresa e o meu, logicamente, Austeresa, adjetivos pátrios, como português e portuguesa, e títulos sociais ou nobiliárquicos, como camponês e camponesa, marquês e marquesa e ainda princesa, a maneira como me tratava, é demais para mim.

Fico agora a pensar: cada vez que me chamava de princesa, sua mente produzia princeza? Não. É demais para mim. Não suporto tal provação. E a traição? Como a descobri? Você mesmo se delatou: ‘…minha namorada Austereza’. Assim escreveu você; sem vírgula. Assim escolheu me mostrar que tem outra namorada. Não teve coragem de me contar pessoalmente, contou-me por subterfúgio, e eu entendi.

Ao não colocar vírgula entre meu nome e o substantivo que ele especifica, mostrou-me que não sou a única. Se o fosse, ter-me-ia escrito ‘…minha namorada, Austeresa’, com vírgula. Muito perspicaz foi você, dar-me a conhecer uma situação por meios gramaticais: substantivo próprio que especifica substantivo comum, sem vírgula entre eles, restringe, ou seja, há mais de um: ‘Professora Austeresa’, sem vírgula, pois não sou a única professora, há muitas; mas substantivo próprio que especifica substantivo comum, com vírgula entre eles, explica, ou seja, só há um: ‘…minha namorada, Austeresa’, com vírgula; eu seria a única, mas não o sou; sei-o agora.

Aliás, nem me importo mais com o namoro. Mesmo não havendo a traição, não quero mais tê-lo como namorado, pois dois erros de português em uma única frase cometidos por um ‘professor de português’ é demais para mim. Adeus.”

A Língua do P
Autoria desconhecida

Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos.

Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir.

Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres.

Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém, posteriormente, pintou pratos para poder pagar promessas. Pálido, porém personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris.

Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los.

Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se, principalmente, pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedirem pousada, provocando, provavelmente, pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas. Pisando Paris, permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se. Profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente!

Pensava Pedro Paulo… Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses.

-Paris! Paris! Proferiu Pedro Paulo.

-Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir.

Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, Papai Procópio partira para Província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para Papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai.

Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, Papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior. Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias? Papai, proferiu Pedro Paulo, pinto porque permitiste, porém, preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal. Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro!

Passando pela ponte, precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando.

Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, Papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito. Poucas palavras proferiram, Porém prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo.

Primeiramente Pedro Paulo pegava pedras, porém, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos. Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios. Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas. Pobre Pedro Paulo, pereceu pintando… Permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar… Para parar preciso pensar. Pensei.

Portanto, pronto pararei.

Preconceito Linguístico
Por Edson Carlos de Oliveira

Quer saber se você é um “preconceituoso linguístico”? Leia as regras abaixo:

1) Você é daqueles atrasados, que não estão de acordo com os ventos da modernidade, que ainda acham que a frase “os menino” contém um erro gramatical?

2) Depois da fazer um exame de consciência, você se considera preso nas malhas do correto e do incorreto no uso da língua e não na ideia de adequado ou inadequado?

3) Você usa armas de “opressão educacional” como borracha, corretor ou a tecla delete do seu teclado ao escrever ou corrigir um texto?

4) Você corrige alguém que fala errado – mesmo se for professor de português?

5) Você perde seu tempo estudando gramática, análise sintática ou possui um livro de regras de concordância verbal ou nominal?

Se suas respostas foram afirmativas em qualquer uma das questões acima, então você é considerado pelo MEC como um “preconceituoso linguístico” que você faz parte da “elite dominante” e oprime socialmente, através da norma culta, a todos aqueles a quem o MEC não quer ensinar corretamente o português.

Nunca pensei na minha vida que buscar falar ou escrever corretamente seria visto um dia como coisa de conservador. Até lá o mundo chegou!

 A Língua Portuguesa no Ambiente de Trabalho
Por Maria Aparecida Araújo

Respeite a língua portuguesa. Pode parecer bobagem, mas dominar o português, tanto na oralidade quanto para escrever e-mails, cartas e bilhetes, demonstra que você tem um nível básico de educação e está preparado para transitar e se comunicar em situações diversas. No dia a dia, todo mundo comete deslizes com a língua, porém, quando o assunto é trabalho, vale a pena dar uma polida no vocabulário, se policiando para não abusar das gírias, e retomar as lições de ortografia e de gramática quando surgirem dúvidas. Uma dica é manter em um canto da mesa um dicionário e um manual de língua portuguesa – verdadeiros guias na hora de redigir textos.

Internetês – Ameaça à Língua Portuguesa
Por Karla Hansen

Quem tem acesso à rede mundial de computadores, não dispensa o “internetês” para escrever suas mensagens ou se comunicar nas salas de bate-papos virtuais. No entanto, o que parecia uma brincadeira de adolescente está abalando o coração, já tão cansado, dos professores da língua portuguesa. O assunto também já ganhou as páginas dos jornais e tem alimentado calorosos debates entre acadêmicos, escritores e jornalistas. Basicamente, o debate tem dividido os interessados entre os que são contra e os que são a favor. De um lado e do outro existem os exagerados e alarmistas de plantão. Entre os que são contra, por exemplo, um argumento bem forte é o de que o “internetês” é mais que uma degradação da língua, um verdadeiro atentado infame a ela.

O escritor Deonísio da Silva chamou de “besteirol” o novo “idioma” e classificou o fenômeno como “assassinato a tecladas” da língua portuguesa. Segundo o escritor, nunca se escreveu tanto como nesses tempos de correspondências eletrônicas, mas para ele estão “botando os carros na frente dos bois”. Ou seja, esses adolescentes têm acesso à internet e ao celular, mas não à norma culta da língua escrita.

Nas palavras de Deonísio: Os pequenos burgueses tinham internet e celular, mas não dominavam a língua escrita. E por isso criaram a deles. Nada espantoso. Também os habitantes das periferias não dominam a norma culta da língua e criam suas gírias, devidamente circunscritas a cada grupo de usuários. Para resumir, o escritor defende que o “internetês” é um sintoma da grave falência educacional, que por sua vez, gera a exclusão dos jovens ao mundo letrado ao qual só poucos têm acesso.

Combatendo serenamente essa tese, Marisa Lajolo é uma das que não veem nada de grave na invenção dos adolescentes. Ao contrário, ela acredita que a nova escrita na internet está promovendo um “surto de poliglotas”. Na sua opinião, o “internetês” é apenas mais uma linguagem usada pelos jovens para se comunicarem entre si, considerados, por ela, poliglotas pela capacidade de se expressar de maneira diferente com seus pais, professores e com os demais interlocutores da comunidade. Dessa forma, para a escritora, isso demonstra criatividade dos adolescentes em criar um código próprio, que reforça a identidade dos mesmos.

Sérgio Nogueira aconselhou os professores a não se assustarem, mas procurarem conhecer a linguagem. Ele admite que esse é um “fenômeno natural”. Para ele, o problema maior a ser atacado pelos professores é mesmo o domínio da linguagem padrão.

Há, do outro lado, entusiastas febris. Pessoas afirmam que o “internetês” veio revolucionar a língua portuguesa e chegam a oferecer um “curso de língua de internetês”, no qual estão traduzidas as principais expressões da “língua” num “dicionário”.

Seguindo o bom senso do professor Sérgio Nogueira, alguns professores de língua portuguesa já tiveram a iniciativa de promover, em sala de aula, atividades com o dialeto. Não se trata de rejeitar, diminuindo-lhe a importância, ou de elevar aos céus, atribuindo-lhe poderes para “revolucionar” ou mesmo ameaçar a língua portuguesa. Essas experiências em sala de aula têm a qualidade de reconhecer o fenômeno e explorá-lo, mostrando sua dimensão real. Dessa forma, é possível que o “internetês” ainda dê o que falar. Mas, com o vocabulário reduzido de que ele dispõe, é provável que o debate, assim como a própria vida do novo dialeto, não sejam capazes de ir muito longe.

 

Comentários

  1. Ana claudia andrade says

    Olá, Céu!
    Gostaria de elogiar seu trabalho, é excelente! Parabéns!
    Quero aproveitar e deixar uma sugestão. Já chegou a ler sobre a proposta da “Sala de aula invertida”? É uma proposta que da mais autonomia para os alunos, sem desmerecer o trabalho do professor, muito pelo contrario! Abre diversas possibilidades, ajuda a lidar com a falta de motivação, falta de interesse na leitura, na escrita etc. Minha sugestão é que você faça um artigo ou uma publicação sobre isso. Não tenho dúvidas de que você, eu e todos irão gostar e se beneficiar muito!

    Abraços!

  2. cristiano felix says

    Sou a favor das reformas gramaticais, elas são importantes, a língua não pode estar presa a uma gramática escrita no século XVI. A língua, Principalmente o nosso português é dinâmica é uma corrente viva. Isso porque a língua pertence as pessoas, aos falantes e não a um livro guardado na estante. Estudar gramática para compreender os fenômenos linguísticos isto sim, mas aprisiona-la como leis imutáveis é um absurdo. Às mudanças são necessárias e importantes, porém sem exageros. Eu vejo a apenas como ferramenta de comunicação com todos os elementos que se faz necessário com o poder de encurtar o tempo e o espaço.

  3. Rita Freitas says

    Bom dia

    Nunca imaginei que ler e escrever corretamente é ser uma pessoa opressora , da “elite dominante”, é por esses e outros motivos que o nosso país se encontra nesta situação lamentável.

  4. DRI MARQUES says

    Não sabia que eu sou “atrasada” na modernidade. 🙁 Que sou opressora educacional… Na grande maioria das vezes, só corrijo mentalmente… Eu vejo que “ganho tempo” lendo os indicativos da “norma culta”, além de outros mais, apesar de ser considerada conservadora! Mas que é horrível ler ou ouvir “os menino”, ah, isso é! Choquei!! 🙂 \o/

  5. aluiz says

    Bem, desta forma então, sou um “preconceituoso linguístico” e praticante (como diria Odorico Paraguaçu). Eu, simplesmente, não consigo ficar quieto quando leio ou ouço um erro. Devo confessar que meu grau de tolerância é inversamente proporcional ao grau de instrução de quem comete o erro.

    • andreano says

      De certa forma, isso é bom. Ficamos antenados aos erros gramaticais e, com isso, aprendemos mais. Se formos corrigir, devemos ser educados. Intolerantes, mas educados.

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