Redundância

Um dos vícios mais comuns da linguagem é a redundância (ou tautologia): repetição de uma ideia que já está explícita no discurso, fazendo com que ele fique cansativo e comprometa a qualidade da mensagem. É mais comum falar de maneira redundante do que escrever, uma vez que, quando escrevemos, prestamos mais atenção às palavras. É comum ver essa utilização em livros, crônicas e poesias, pois os autores utilizam-se da licença poética, permitindo essa liberdade na hora de se expressar. No geral, a redundância deve ser evitada, pois pode passar a impressão de que o texto está fraco e vazio, por ficar dando voltas na mesma conclusão.

Alguns exemplos:

  • abertura inaugural (A abertura só pode ser inaugural.)
  • acabamento final (Acabamento já dá ideia de que algo está no final.)
  • adiar para depois (Quando se adia, sempre ficará para depois.)
  • almirante da Marinha (Só existe esta patente na Marinha.)
  • antecipar para antes (Quando se antecipa, sempre ficará para antes.)
  • ambos os dois (A palavra ambos, etimologicamente, já significa dois.)
  • baseado em fatos reais (Todo fato é real, caso contrário não é fato.)
  • boato falso (Boato já significa um relato sem correspondência com a verdade).
  • breve alocução (Alocução já significa um discurso breve.)
  • brigadeiro da aeronáutica (Só existe esta patente na Aeronáutica.)
  • canja de galinha. (Se é canja que você toma, só pode ser de galinha.)
  • certeza absoluta (Não existe certeza relativa, ela é sempre absoluta.)
  • comparecer pessoalmente (Comparecer já indica que é de corpo presente.)
  • conclusão final (A palavra conclusão já indica a natureza de término de algo.)
  • consenso geral (Todo consenso é geral, não há consenso individual ou particular.)
  • conviver junto (Conviver já presume o fato de ser junto.)
  • criação nova (Se foi criado, é porque é novo. E, se não é novo, não foi criado.)
  • deferir favoravelmente (Deferir significa aprovar, aceitar, despachar, logo todo deferimento só pode ser favorável.)
  • déficit negativo (O déficit é sempre negativo, e o superávit é sempre positivo.)
  • descer pra baixo (É a única direção possível para este verbo.)
  • detalhe pequeno (Se é detalhe, então já é pequeno. Existem grandes detalhes?)
  • dupla de dois (A dupla é sempre formada por dois elementos.)
  • elo de ligação (Um elo serve para apenas uma coisa: ligar.)
  • empréstimo temporário  (Noção de empréstimo implica a devolução daquilo que se pegou emprestado depois de um certo tempo.)
  • encarar de frente (Encarar é olhar na cara, o que não pode ser feito por trás.)
  • erário público (O dicionário ensina que erário é o tesouro público, por isso, erário só basta.)
  • escolha opcional (Existe alguma escolha que não seja opção?)
  • estreia pela primeira vez  (Se é uma estreia, então é a primeira vez.)
  • exportação para fora (O termo exportação é utilizado para a saída de bens, produtos e serviços além das fronteiras do país de origem.)
  • ganhar grátis (Grátis já significa um ganho sem custos.)
  • general do Exército (Só existe esta patente no Exército.)
  • gritar alto (Quando se grita, só pode ser alto.)
  • há anos atrás (O verbo haver é um indicador de tempo passado, sem necessidade de utilizar atrás.)
  • hemorragia de sangue (A hemorragia é um derramamento de sangue para fora dos vasos.)
  • juntamente com  (Com já significa junto de ou junto a.)
  • labaredas de fogo (De que mais as labaredas podem ser? De água?)
  • linda caligrafia (A palavra caligrafia já quer dizer bela grafia.)  cali = belo
  • manter o mesmo (Pode-se manter outro?) 
  • manusear com as mãos (Manusear já tem por radical, em latim, a ideia de atuar com as mãos.)
  • metades iguais (Ao dividir algo pela metade, as duas partes só podem ser iguais.)
  • minha autobiografia (Autobiografia dispensa o termo minha, pois já quer dizer história da minha vida.)
  • minha opinião pessoal (Se a opinião é minha, ela só pode ser pessoal.)
  • monopólio exclusivo (Está ínsita em monopólio a ideia de exclusividade)
  • multidão de pessoas (Multidão só pode ser de um grupo de pessoas.)
  • novidade inédita (não há novidade que não seja inédita.)
  • novo lançamento (Alguém já viu lançamento velho?)
  • outra alternativa (A análise do vocábulo alternativa faz ver que nele já existe um radical (alter) que, em latim, significa outro.)
  • panorama geral (Panorama já pressupõe generalidade.)
  • pessoa humana (Tratando-se de uma pessoa, só pode ser humana.)
  • planejar antecipadamente (Não há como planejar algo posteriormente.)
  • planos para o futuro (Você conhece alguém que faz planos para o passado? Só se for o Michael Fox no filme ‘De volta para o Futuro’.)
  • prefeitura municipal (Não existe prefeitura estadual ou federal, ela está ligada ao município.)
  • preparar de antemão (Por força do prefixo latino pre, preparar já tem em si a ideia de anterioridade),
  • protagonista principal (Protagonista já é o personagem principal.)
  • resultado do laudo (Todo laudo já é um resultado da análise de alguma coisa.)
  • sair para fora (O ato de sair é sempre para fora.)
  • somar a mais (Se você vai somar, só pode ser pra mais. O verbo já traz consigo a ideia de acréscimo.)
  • sorriso nos lábios (Impossível um sorriso ser na testa.) 
  • subir pra cima (É a única direção possível para este verbo.)
  • surpresa inesperada (Uma surpresa esperada não é uma surpresa.)
  • todos são unânimes (A unanimidade implica que seja de todos.)
  • viúva do falecido (Não pode haver viúva se não houver um falecido.)
  • voas pelos ares (Ninguém ainda conseguiu voar pelas águas.)

Segue um texto cheio de redundâncias que, obviamente, devem ser evitadas. 

Um fato verídico

Dizem que João Alberto abusa demais da bebida alcoólica. Há anos atrás, ele, logo que amanhece o dia, dirige-se à sua adega de bebidas, que fica no primeiro andar de sua casa.

Sua esposa, que convive junto dele há vinte e cinco anos, explicou-me com minucioso detalhe o grave problema do marido. Segundo ela, todos os dias, João Alberto mantém o mesmo hábito: sobe para cima apressado e entra para dentro da adega. Repete outra vez o que sempre faz. E, para piorar mais, só sai para fora do recinto e desce para baixo já quando não pode mais engolir pela boca as doses.  

Dona Margarida, a esposa, diz que, na sua opinião pessoal, a bebida para João Alberto tornou-se um colírio para os olhos, ou um batom na boca de uma mulher vaidosa. Ainda no seu modo de ver, vai ser difícil o marido recuar para trás com  o vício. Cada vez ele avança para frente com esse vício mau. E ele, diferente do tempo passado de antes, não acrescenta mais nada em sua vida e está caindo num abismo sem fundo.

Atualmente, João Alberto, que é o principal protagonista de uma história trágica, não consegue mais encarar de frente o seu problema.  Está vivendo um sofrimento triste. Chega a sofrer crises caóticas devido a embriaguezes e ressacas. Por diversas vezes, ele adiou para depois deixar o álcool, mas s suas decisões voam pelos ares. Ele não tem mais condição de fazer uma livre escolha

É consenso geral de sua família que João Alberto compareça em pessoa no Alcoólicos Anônimos. Só que sua esposa diz que não pode introduzir o marido dentro do grupo, já que é uma decisão individual de cada um.

Não confunda “redundância” com “pleonasmo”. Toda redundância é pleonástica, mas nem todo pleonasmo é redundante.
Há algumas expressões que alguns consideram redundantes, tautológicas, mas são perfeitamente possíveis dentro de um contexto apropriado.